Psicoterapia psicodélica com enteógenos

Enteógeno (ou enteogénico) é o estado xamânico ou de êxtase induzida pela ingestão de substâncias alteradoras da consciência. É um neologismo que vem do inglês: entheogen ou entheogenic, tendo sido proposto em 1973 por investigadores, dentre os quais se pode citar Gordon Wasson (1898-1986).
A palavra enteógeno, que significa literalmente “manifestação interior do divino”, deriva de uma palavra grega obsoleta, da mesma raiz da palavra “entusiasmo”, que refere à comunhão religiosa sob efeito de substâncias visionárias ou à ataques de profecia, e paixão erótica. Entretanto este termo foi proposto como uma forma elegante de nomear estas substâncias, sem taxar pejorativamente costumes de outras culturas (ver Medicina indígena).
O uso de plantas (ou fungos) para alteração da consciência e percepção é uma realidade mundial e milenar. Até mesmo animais usam plantas com atividade psicotrópica, como é o caso de javalis e primatas que cavam para conseguir as raizes do poderoso eboka. Esses seres, são considerados pelos usuários, como seres divinos e professores espirituais. Entre as plantas, alguns dos enteógenos mais conhecidos são Ayahuasca, Jurema, Cânabis, Yopo, Peiote, Ololiuqui. Entre os fungos, Psilocybe, Amanita.
Observe-se que incluem nessa relação plantas com substâncias que possuem efeitos farmacológicos distintos . A Cannabis (Cannabis sativa sp) por exemplo com suas múltiplas formas de preparação Bangue (Bhang), Haxixe, etc. se enquadra nessa categoria por seu uso étnico (religioso – medicinal) em algumas culturas da Índia, da Jamaica e de algumas tribos africanas, mas é considerada por alguns como um sedativo euforiante ou seja um psicotrópico com efeito depressor no sistema nervoso com propriedades diferenciadas deste grupo dos tranquilizantes, análogas talvez às que explicam as diferenças entre dois elementos ativos extraídos do ópio, a Heroína e Morfina
Enteógeno x alucinógeno
A farmacologia ainda não chegou a acordo sobre o termo para descrever as suas ações farmacológicas, assim o termo alucinógeno continua sendo a designação predominante entre os cientistas mais tradicionais, apesar da maioria das substâncias não provocar alucinações no sentido clínico. O termo psicodélico continua muito utilizado por cientistas de gerações mais recentes, em geral referindo-se apenas a substâncias cujos efeitos são semelhantes aos do LSD ou da mescalina.
Alguns autores não consideram que a expressão enteogénico seja um mero sinônimo de psicodélico, já que nem todas as substâncias usadas num contexto sagrado provocam alucinações, e para diferenciar do uso de alucinógeno com finalidade lúdica. Os estados de comunhão com a divindade são característicos do uso tradicional de substâncias visionárias, não seria igualmente alcançado com o uso de substâncias sintéticas (LSD, MDMA, etc) para fins recreacionais ou de prazer farmacológico. A distinção se apóia no contexto em que seu uso é feito. Se for dentro de uma realidade religiosa, sagrada e tradicional a a substância é considerada enteogénica. Se for num contexto recreativo e associado à moderna cultura pop ela é considerada psicodélicas.
Por outro lado o sentido do termo psicodélico como associado a utilização individual e lúdica foi uma consequência do uso descontrolado a partir do movimento hippie mas iniciou-se com sérias pesquisas etnofarmacológicas e bioquímicas, mais especificamente na área da psicoterapia, associadas a descoberta do LSD.
A proibição moral de algumas substâncias de uso recreativo como lícitas e outras como ilícitas não se relacionam necessariamente como o potencial de dano e efeito colateral ou potencial de causar dependência química das mesmas. Alguns autores associam essa preucupação à denominada invasão farmacêutica, ou aumento explosivo da produção e consumo de novos fármacos ocorrida ao longo de todo o século XX e/ou ao etnocentrismo e combate à culturas pagãs do período colonial. Os legisladores estão atentos para esse fenômeno diante dos efeitos sociais nefastos do Narcotráfico, mas essa é outra área cerceada por múltiplos interesses e aonde também não se possui um saber esclarecedor.
Psicoterapia psicodélica
Psicoterapia psicodélica refere-se à prática de psicoterapia envolvendo o uso de drogas psicodélicas. Como uma alternativa para os sinônimos tais como “alucinógenos” ou “enteógenos” e outros nomes construídos funcionalmente, o uso do termo psicodélico enfatiza a habilidade que as drogas psicodélicas têm de facilitar a exploração da psique, que é fundamental para a maioria dos métodos de psicoterapia psicodélica.
Segundo Fontana (1969) essas substâncias devem ser consideradas como auxiliares da psicoterapia no sentido de aumentar o insight e favorecer a conexão e não como um uso per se, que pode remover ansiedades latentes que deveriam ser elaboradas no processo psicoterápico. Assinala a indicação para a maioria dos pacientes neuróticos e chama atenção do risco de surto psicótico em pacientes susceptíveis.
Psicoterapia psicodélica, no mais amplo senso, confunde-se com o estudo e utilização de técnicas de meditação e êxtase religioso pela psicologia que é provavelmente tão antigo quanto o conhecimento humano sobre plantas alucinógenas. Embora predominantemente visto como espiritual por natureza, elementos da prática psicoterapêutica podem ser reconhecidos nos rituais enteogénicos que integram as práticas médicas de muitas culturas. Notavelmente em algumas regiões da América Central (integrantes das culturas Maia e Asteca) e América do Sul (Incas e alguns povos da Amazônia e Nordeste do Brasil) reúnem a maioria das substancias conhecidas como alucinógenos e Enteógenos.
Alguns estudos precursores poderiam ser citados entre estes o estudo sistemático do Peiote o cacto Anhalonium lewinii em 1886 utilizado pelos índios do México e Sudoeste dos Estados Unidos (atualmente integrantes da Native American Church) pelo farmacologiasta Ludwig Lewin que dele isolou a Mescalina a partir do que se iniciaram estudos realizados por psicólogos famosos como Havelock Ellis, Jaensch e Weir Mitchell (Huxley, 1953/ 1965) e os estdos e experiência de Richard Spruce (1817-1893) e Alfred Russel Wallace (1823-1913) com a Aya-huasca na Amazônia na segunda metade so séc. XIX.
O uso de agentes psicodélicos na psicoterapia ocidental se iniciou na década de 1950, depois da distribuição de LSD para pesquisadores, feita por seu fabricante, Sandoz Laboratories. Pesquisas extensivas quanto ao uso experimental, quimioterapêutico e psicoterapêutico de drogas psicodélicas em todo o mundo por 15 anos após sua descoberta. Muitos estudos descobriram que o uso das drogas psicodélicas facilitaram em muito os processos psicoterapêuticos, e provaram particular utilidade para pacientes com problemas que de outra forma seriam de difícil tratamento, incluindo sobretudo alcoólicos, viciados em drogas, pacientes terminais além de autistas, alguns tipos de enxaqueca (cefaléia em salvas), sociopatas e psicopatas.
Em meados da década de 1960, em resposta a interesses em relação a proliferação do uso desautorizado das drogas psicodélicas pelo público em geral (especialmente a contracultura), vários passos foram dados para cortar seu uso. Cedendo à pressão do governo, em 1965 a Sandoz suspendeu a produção de LSD, e em muitos países este foi banido, ou disponilbilizado tão limitadamente que tornou difícil a sua pesquisa. Em 1980 a pesquisa autorizada em aplicações psicoterapêuticas de drogas psicodélicas tinham sido essencialmente descontinuadas ao redor do mundo.
Uso terapêutico
Uma das intrigantes formas de uso de vegetais que contém substâncias alucinógenas é o caso da Ipomoea purpurea ou I. violácea conhecida como Glória da Manhã (Morning Glory) que para alguns autores corresponde ao ololiuhqui que contém ácido lisérgico e faz parte do sistema etnomédico nahuattl dos astecas/toltecas, com a qual se prepara uma essência floral diluída centenas ou milhares de vezes assim como os medicamentos homeopáticos. Observe-se que o seu elemento ativo básico é o LSA – Amida do Ácido Lisérgico (Lysergic Acid Amides) e não a Dietilamida do Ácido Lisérgico (lysergic acid diethylamide) ou LSD do qual ignora-se se contém frações e/ou se ocorre espontaneamente uma biotransformação.
Como essência floral a Ipoméia é comercializada em vários sistemas, como no Sistema Floral de Minas, com o nome de Ipomea, no Sistema Floral do Nordeste com o nome de Água Azul, no Sistema Florais da Califórnia com o nome de Morning Glory a sua indicação é segundo a Rio Flor a recuperação dos usuários de drogas e de todos aqueles que possuem estilos de vida desregrados, auxiliando a alma a se libertar dos vínculos e das dependências que as tiram a oportunidade de viver dentro do mundo real e alcançar seu propósito de vida.
As diferenças entre as distintas substâncias enteógenas ou mesmo sua presença em doses homeopáticas (independente dos questionamentos da sua presença material ou efeito placebo) reforçam a idéia que o efeito da substância e de sua função terapêutica têm que ser compreendidos na perspectiva de um conjunto (set) de expectativas e vivências simbólicas para o que o terapeuta precisa estar preparado para conduzir, pois não é apenas administrar a indicação e o risco de ingestão de um medicamento.
A formação de terapeutas com tal especialização no momento no Brasil, nos Estados Unidos da América do Norte, em alguns países da América do Sul e em muitos países ainda é apenas uma possibilidade teórica, pois a utilização de tais substâncias apenas é permitida no contexto de uso tradicional delimitada pela psiquiatria, psicologia antropologia da saúde da religião e controlada no Brasil pelo CONAD – Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas e nos EUA o é FDA – Food and Drug Administration e o DEA – Drug Enforcement Administration.
Perspectivas teóricas
Apesar de não legalmente instituída pelos órgãos de regulação e controle profissional do Brasil, no plano teórico já existem como referidas pesquisas de resultados terapêuticos de seu emprego na medicina tradicional e/ou segurança quanto a ser inofensivo à saúde o consumo dentro das práticas tradicionais. Contudo no plano teórico ainda não se formou um consenso quanto à forma do método terapêutico ou linha teórica de atuação. Sem dúvida esse conflito reflete a própria dificuldade de conceituação e intervenção das teorias e técnicas psicoterápicas.
Diversos protocolos de pesquisa vêm sendo desenvolvidos a exemplo Psicoterapia com LSD (LSD – assisted psychotherapy) em pessoas sofrendo de ansiedade associado à estágio avançados de doenças terminais, ou proposições de intervenção vem sendo desenvolvidas em centros para tratamento e recuperação de drogadição a exemplo do Takiwasi Centre. Já existem institutos que acompanham apóiam e desenvolvem pesquisas como o MAPS que é uma associação multidisciplinar para o estudo de substâncias psicodélicas e utilização medicinal da Cannabis sativa que tem como objeto de pesquisa o stress pós – traumático, drogadição; Sociedades médicas como a SÄPT – Sociedade suíça de médicos para terapia psicodélica criada por Peter Baumann e no Brasil o NEIP – Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Psicoativos, entre outras associações.
Considerando então esse conjunto de pesquisas das áreas médicas e sociais o que se pode antever como proposição psicoterápica são a combinação das técnicas que possuem evidências clínicas no tratamento nos transtornos mentais já referidos a exemplo do emprego psicologia analítica jungniana com pacientes terminais, as proposições da psicologia transpessoal principalmente porque inclui pesquisadores de substancia psicodélicas como Stanislav Grof ou terapia cognitivo comportamental no controle da drogadição naturalmente além das intervenções que já se realizam a partir da psicofarmacologia e homeopatia como no caso da Morning Glory.
Numa lista provisória de pesquisadores com contribuições relevantes inclui-se:
* Gordon Wasson
* Rick Strassman
* Jonathan Ott
* Stanislav Grof
* Lauretta Bender
* Peter Baumann
* Albert Hofmann
* Rick Doblin
* Samuel Widmer
* Humphry Osmond
* Luis Eduardo Luna
* Alberto E. Fontana
Contudo não se pode ignorar as contribuições dos principais centros urbanos de utilização da hoasca: o Santo Daime a União do Vegetal e a Igreja Nativa Americana que em função de sua legitimação social e convívio com pesquisadores vêm produzido uma nova interface entre a ciência terapêutica e a religião.
Referências
* VARGAS, EDUARDO. V. Fármacos e outros objetos sócio-técnicos: notas para uma genealogia das drogas, in: LABATE, BEATRIZ C….(et al.) (orgs.) Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador, EDUFBA, 2008
* SANTOS, RAFAEL G. DOS; Aspectos culturais e simbólicos do uso de enteógenos; NEIP
* GREEN, JONATHON. Cannabis. Barcelona, RBA – integral, 2003
* GOTH, ANDRES. Farmacologia médica. RJ, Guanabara Koogan, 1975
* CARNEIRO, HENRIQUE. Filtros, mezinhas e triacas, as drogas no mundo moderno. SP, Xamã, 1994
Referências para Psicoterapia psicodélica
* FONTANA, ALBERTO E. (org.) Psicoterapia com LSD e outros alucinógenos. SP, Mestre Jou, 1969
* GROF, STANISLAV LSD Psychotherapy, 1980. (3ª ed., editora MAPS, ISBN 0-9660019-4-X [2001]). Em inglês.
* HUXLEY, ALDOUS. As portas da Percepção e O céu e o Inferno. RJ, Civilização Brasileira, 1965
* MYRON STOLAROFF, The Secret Chief: Conversations with a pioneer of the underground psychedelic therapy movement, Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS) 1997. ISBN 0-9660019-0-7 (hardcover) ISBN 0-9660019-1-5 (paperback). Em inglês.
* BLEWETT, D.B., PH.D; CHWELOS N., M.D., A Handbook for the Therapeutic use of LSD-25 [1]. Este texto está parcialmente desatualizado, mas ainda é um boa referência (em inglês).
* PiHKAL (ISBN: 096300965) e TiHKAL (ISBN: 0963009699), de Ann & Alexander Shulgin, incluem capítulos sobre psicoterapia psicodélica (em inglês).
* STOLAROFF, MYRON,Thanatos to Eros [2]. Apesar de não ser estritamente sobre psicoterapia, esse livro discute muitos aspectos da terapia psicodélica (em inglês).
| junho 8, 2010 | Posted by Boddhisatva under Corpo e Mente, Enteógenos |
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